Será que você conhece
este país? Para sabê-lo, ponha de lado, antes de mais nada, o
desdém que tradicionalmente os brasileiros alimentam pelas coisas de
Portugal. Desdém, sim. Temos, no Brasil, uma
tradição hipocritamente inconfessa de desdenhar o português. A tal
ponto que o adjectivo luso chega a ganhar significado pejorativo entre
nós. Habituamo-nos a cultivar a piada de português com contumaz
perversidade. Que depois dizemos, com hipocrisia para uso
além-fronteira, tratar-se de mera jocosidade afectuosa.
Há razões históricas
para isso, sem dúvida. Portugal impôs-nos, durante mais de
trezentos anos, o peso de sua colonização de rapina. Os primeiros
contingentes imigratórios provindos de Portugal após a nossa Independência,
entre meados de século 19 e o início de 20, destinados sobretudo a substituir a
mão-de-obra escrava definitivamente extinta em 1889, eram constituídos por
cidadãos rudes e grosseiros—açoreanos sobretudo, tidos como os únicos capazes de
aguentar as miseráveis condições de trabalho a que eram forçados os imigrantes
no Brasil. Que terminaram por compor uma imagem típica altamente
desfavorável a tudo o que fosse luso.
No final do século 19,
uma onda de nacionalismo instalado na então emergente sociedade brasileira
generalizou um sentimento de hostilidade ao português, já sem distinção de
classe. Em 1894, por exemplo, um jornal brasileiro, que
sintomaticamente se chamava O Jacobino, publicava em editorial:
“Parece incrível que uma repartição pública coma a Estrada de Ferro tenha
tanto português trabalhando lá. Quando esses desmandos
cessarão? Quando esses labregos deixarão de ocupar os lugares que
deveriam ser dos brasileiros natos?”
Tudo isso deixou traços
no nosso comportamento social. E que, entretanto, de há muito já
deveriam ter sido extintos.
Pois a verdade é que a
cultura que produziu a Independência do Brasil foi uma cultura
luso-brasileira. E entre o final do século 19 e o início do 20
éramos não apenas lusófonos mas intensamente lusiformes. O Brasil
mudou muito no pós-guerra, assumiu características retiradas de outras
influências, sobretudo a norte-americana. A língua brasileira
modificou e degradou-se em termos vocabulares e léxicos, distanciando-se muito
da índole do idioma original. Egresso de ditadura tão abomináveis
quanto a salazarista, o Brasil cresceu e tem amadurecido politicamente.
A cultura nacional consolidou-se, embora nem sempre desatada das raízes
lusas que lhe deram origem.
Portugal, por seu turno,
ao acordar da letargia salazarista para democratizar-se, começou a palmilhar um
cainho de modernização imparável. Ás vezes aos trancos e
barrancos, tanto quanto também por vezes trôpega anda a democracia, na qual o
país se exercita cada vez mais. Lá e cá...
Brasil e Portugal são,
hoje, duas nações livres, renovadas e parentes. Parentes de grande
proximidade, não obstante as transformações por que têm passado.
Não há porque se desdenhem uma à outra.
Mas não se iluda.
Portugal não é nenhum paraíso. Muito menos o novo Eldorado
que muita gente imagina ao atirar-se para cá, de mala e cuia, na esperança de
melhorar de vida.
Com uma longa história
de país exportador de gente, Portugal viu-se transformado, ultimamente, por
ingerências históricas, em país de imigração. E não recebe apenas
brasileiros. Finda a colonização em África, não só os portugueses
lá residentes transferiram-se em massa para cá, mas também muitos nativos das
ex-colónias, desejosos de melhores empregos e mais oportunidades, ou de formação
escolar, universitária ou não. Para além disso e por conta do seu
europeísmo, Portugal recebe ainda um contingente enorme de cidadãos oriundos dos
chamados países de Leste—ex-integrantes da extinta União Soviética.
Os centros maiores
incham com esses imigrantes à procura de trabalho, que mesmo para os nacionais
está muito difícil. Portugal não foge à regra do desemprego e que
aflige quase o mundo inteiro. Cuidado, pois. Sem
qualificação profissional, sem contrato de trabalho, sem legalização da sua
permanência no país sem alguma base de apoio, você corre o sério risco de
integrar a multidão de excluídos sociais que hoje marcam presença em
Portugal.
Mas há também o relaxar
e gozar. Os portugueses, de modo geral, gostam dos
brasileiros. E há até os que chegam a achar bonita e melodiosa a
barulheira típica que se escuta quando um grupo de brasílicas figuras se reúne
em qualquer lugar. (Português bem educado fala baixinho, baixo
demais até, o que me parece ser uma reminiscência do medo que a PIDE de Salazar
implantou, durante cinquenta anos, neste país.)
Embora frequentemente
contrariado em suas tradições agrícolas em consequência das regras do mercado
comum a que pertence por força dos tratados europeus, Portugal continua a
produzir vinhos excelentes. E a oferecer a seus visitantes uma
gastronomia saborosa e gorda, que via muito além da simples bacalhoada que a
maioria dos brasileiros costuma equivocadamente referir como sendo a única
glória culinária lusitana.
Apesar de crises e
graves problemas sociais como o dos toxico-dependentes, Portugal oferece a média
de seus habitantes um apreciável nível de qualidade de vida.
Acolhe e aplaude telenovelas e jogadores de futebol provindos do
Brasil. Assim como faz filas em restaurantes para degustar uma boa
feijoada ou um variado rodízio de churrascos. E consume, também
com voracidade, a música brasileira—da bossa nova ao rock pesado, passando por
Caetano, Calcanhotto, Chico, Vinicius e Toquinho e outras coisas boas, tanto
quanto pelo country brega e até pelo intragável Tiririca (que me desculpem os
seus fãs).
Nem tudo são rosas. Nem tudo são espinhos. O importante é não ir com muita sede ao pote. Portugal só tem o tamanho do nosso Estado de Santa Catarina. Não cabe muita gente aqui.
(Correio do Brasil 01/07/2004)