Portugal para principiantes (PARTE 3)

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Portugal para principiantes (parte 1) entre rosas e espinhos

Portugal para principiantes (parte 2) onde o bumbum é rabinho

Portugal para principiantes (parte 4) Fale baixo, se faz favor

Cuidado com o il'fante

Por Paulo Afonso Grisolli 

Ao final da refeição pedi um palito ao empregado de mesa (que em Portugal não é garçõn).  e percebi que o homem não me entendia.

Repeti-lhe o pedido, esforçando-me por esclarecer cada sílaba:

- Pa-li-to. Pal-li-to.

Foi pior.  Ele abanou-me a cabeça, desorientado.  Até que, após um momento de reflexão, o seu semi-analfabetismo permitiu-lhe decifrar:

- Ah sim! Palito!

E, solícito, foi buscar a ferramenta pós prandial que eu pedira.

O palito que ele dizia era diferente do meu.  Eu devia ter dito alguma coisa que se assemelhasse a pelito, criando, para a primeira sílaba, um som vocálico intermediário entre o a e o e fechado.  Mal alfabetizado, o homem não conseguira descodificar a minha pronúncia clara e facilmente referente à ortografia da palavra.

Da mesma forma, uma das primeiras empregadas que tivemos em casa, quando morávamos ainda no Porto, deixou para a minha mulher o seguinte bilhete, escrito em seus garranchos de quase analfabeta: "Eu quero que a senhora bá ber como arranjei o frigorífico."

Escreveu como pronunciava.  O que não é uma regra ortográfica em Portugal.

Aqui, os sons vocálicos sofrem uma grande variação, a depender da palavra em que estejam.  O e inicial, por exemplo, quando fechado, com frequência transforma-se em i, como em elegante, que à portuguesa se diz el'fante.  Em certa ocasião, ao parar o seu carro na área L de um parque de estacionamento, um amigo ligou-me para o telemóvel (ou seja, para o meu celular) e informou-me que me esperava no El.  E disse-o com tal pronúncia que comecei a procurar, no centro comercial onde nos encontrávamos, alguma coisa que se parecesse com um hall, como me soou a palavra dita por ele.  Um e menos aberto do que o nosso e a semi-deglutição da segunda sílaba levava-me à confusão.

Os portugueses gostam do som melodioso da pronúncia brasileira, que contrasta com o tom cerrado e quase soturno da fala lusitana.  Mas nem sempre a entendem.

O inverso é ainda pior.  O ouvido brasileiro decifra mal o sotaque português.

Que, entretanto, é muito mais variado e rico do que supõem os brasileiros.  No falar fechado dos portugueses, em que se misturam ancestrais e recentes influências, há diversidades e sutilezas que passam completamente despercebidas por quem fala com o relaxamento e a frequente má articulação do brasileiro médio.  Por exemplo:  entre o substantivo pelo (que na ortografia lusitana leva acento circunflexo) e pelo, contração de preposição e artigo, há uma enorme e substancial diferença prosódica.  Mais:  em palavras como recepção e decepção o p não soa e serve para marcar uma abertura do som do e que o precede.  Bem diferente do que acontece na /recepição/ e na /decepição/ brasileiras.  Mas a palavra indenização aqui se escreve indemnização e o m que precede o n tem plena sonoridade.  O que acontece também em amnistia.  Um m não vocalizado porém, bem distinto do que seria pronunciado no Brasil:  /aministia/.

Facto, com c sonoro, é o nosso fato, ocorrência.  E fato, sem c nenhum, é o nosso terno, palavra também usada em fato de banho (maiô) ou fato de treino (abrigo de ginástica, jogging).

A par disso, ocorrem as diferenças regionais.  Existem em Portugal múltiplos sotaques, dos quais o ouvido brasileiro mal se dá conta.  A pronúncia do Porto é dada como a mais feia, à semelhança do que acontece no Brasil com a fala caipirona do interior de São Paulo e do Paraná.  Mas há outras nuances pelo Norte.  O coimbrão soa diferente do lisboeta.  É notável também o sotaque de Viseu.  E o alentejano tem um jeito próprio de falar cantado e com omissões de sílabas.  Na Madeira e nos Açores, de falares diferentes, eu diria que a pronúncia é "bicuda".

Bola, com o fechado, é o feminino de bolo, empregado em bola de carne, por exemplo.  Mas diferente de bola, com o aberto, que é a mesmo bola que chutamos todos, cá e lá.

A lista é infindável.  E exige do ouvido recém-chegado um extraordinário esforço de reeducação.  As novelas brasileiras têm sido um bom exercício no sentido Brasil-Portugal.  Mas, na direção inversa, as telenovelas portuguesas exportadas para o Brasil tiveram, afinal, que ser dubladas para que fossem entendidas.  Dobradas, como se diz aqui.

Não foi à-toa, pois, que Bibi Ferreira, ao preparar-se para viver Amália Rodrigues no teatro, comentou:

- É muito difícil estudar a prosódia portuguesa - é sílaba por sílaba.

Por vezes, para bom entendedor meia palavra não basta.  É preciso dizê-la toda e com pronúncia muito adequada.

Atenção, pois, para quando ouvir um "sais" pronunciado por algum lisboeta.  Porque não estará certamente referindo-se a produtos voláteis que fazem pessoas acordar de desmaios, mas simplesmente ao número seis, onde o ditongo ei soa como ai.

(Correio do Brasil 15 de Julho de 2004)