Portugal para principiantes (PARTE 4)

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Portugal para principiantes (parte 1) entre rosas e espinhos

Portugal para principiantes (parte 2) onde o bumbum é rabinho

Portugal para principiantes ( parte 3) cuidado com o il'fante


Fale baixo, se faz favor

Por Paulo Afonso Grisolli 

Convém pedir licença ao seu interlocutor antes de desligar o telefone.  É o hábito em Portugal.  País de salamaleques e muitas vênias, aqui são importantes os "doutores", as "excelências", os "peço desculpas" e, entre tanta outras formalidades, o absoluto e fundamental "se faz favor".

Herdeiro de uma ditadura de cinquenta anos que se dizia educativa por impor severos limites aos seus submissos cidadãos, o português de hoje fala baixo e inclina-se muito, num arremedo de cortesias que parece provir da velha subserviência.  De modo geral, respeita o lugar na fila e obedece, ciosamente, à ordem de chamada nos lugares em que é preciso tirar senha para ser atendido.  Mas, entre a dura lição dos tempos de submissão e a nova respiração que lhe dá a democracia, divide-se também entre ser equivocamente libertário e severamente formal com o seu próximo.

Dizer "bom apetite" e, numa segunda oportunidade, "continuação do bom apetite" é uma manifestação imperativa, tanto quanto dizer "com licença" antes de pousa o telefone no gancho.  Receber com um "santinho" o espirro do próximo é outro hábito necessário.  Desejar "boa Páscoa", "bom Na tal", "boas férias", "bom fim-de-semana", "bom trabalho", "bom descanso", "bom qualquer coisa" é regra inquebrantável.  E, sobretudo, falar baixo nos lugares públicos (embora fumar nesses mesmos lugares seja um suposto ato de afirmação de liberdade--mesmo em desfavor daqueles pobre sacrificados que assim se transformam em fumantes passivos).

Brasileiro é barulhento demais.  Por qualquer alegria improvisa uma batucada sem perguntar-se se o vizinho está interessado nela ou se tem alguém doente em casa.  E o mau hábito do tirar vantagem, que para nós também provém dos tempos da ditadura, ainda está arraigado na alma brasileira.  Daí as confusões quando se quer "passar por cima" de quem está sendo atendido (num café, numa repartição por exemplo), mesmo que seja para uma simples e rápida informaçãozinha.

Empregado de mesa (garçon) ou de balcão, em Portugal, não admite atendimento duplo.  E, como regra geral quase infalível, só atenderá por ordem de fila ou de senha, repetindo sempre, como cabalístico password, o seu "quem está a seguir?".  Mesmo que à sua frente não exista mais do que um único e evidente cliente "a seguir".  O hábito é invencível.

Não há dúvida de que o português médio é mais bem educado socialmente do que o brasileiro, que chega muitas vezes a ser grosseiro na sua alegada informalidade.  O que não evita, porém, que português pare o carro em fila dupla e vá resolver os seus problemas com calma, mesmo que com isso prenda os carros estacionados regularmente.  Ou que use a buzina com estardalhaço em vez de cuidadosamente pisar o pedal do freio (travão por aqui).  Ou que, apesar dos muitos esforços ecológicos, castigue a areia das praias com as guimbas de cigarro (a que chamam beatas).

Lembro-me de que, logo que cheguei a Portugal, há muitos anos, vi, da minha sacada no sétimo andar, chegar e instalar-se placidamente nas escadas junto à porta do meu prédio um enorme grupo de aldeôes, que ali se punham para fazer um piquenique.  (Era domingo e esse hábito de excursionar em grupo familiar é muito frequente.)  Quando vi as mulheres abrindo a volumosa matalotagem, tive um frio na barriga, imaginado a sujeirada em que aquilo não terminaria:  o grupo transformava em restaurante a escadaria do meu prédio e ia almoçar ali.

Em calma e com muita conversa sem gritaria, os acepipes formam distribuídos e deglutidos.  Eram muitos e variados, regados com vinho--que é um dos santos produtos de Portugal.  Depois, homens e mulheres recostaram-se, reduziram ainda mais o nível do ruído das conversas e risadas e simplesmente jiboiaram, em abençoada sesta.

Fui almoçar eu então, cansado do espetáculo e preocupado com a imundície que dele resultaria.

Voltei à varanda ao fim do meu almoço.  E na escada da portaria já não vi ninguém.  O grupo partira.  Sem deixar um único traço do rega-bofe que justificara a sua presença ali.  Tudo ficara rigorosamente limpo.

Isso acontece e muito em Portugal.  Existem também, é claro, os equivalentes aos desastrosos "farofeiros" do Brasil.  Assim como os passeios das grandes cidades exigem cautelas especiais para que não se pise nos incontáveis cocôs de cachorro, para os quais não está ainda suficientemente implantado o hábito de recolher num saquinho plástico e pôr no lixo.  Quanto ao falar baixo, já há desmentidos frequentes, vindos sobretudo da juventude irreverente que, no desejo de afirmar-se em liberdade, desafirma a liberdade dos outros.  E haja música em altíssimo volume!

Mas, de modo geral, para viver bem neste país tão simpático, é conveniente que você, como bom brasileiro, dado a alegadas informalidades e desacostumado de vênias e reverências, aprenda antes de tudo uma boa dúzia de regras para conviver com o próximo.

Subserviência ou hipocrisia à parte, essas normazinhas também significam civilização.

Correio do Brasil, 22 de Julho de 2004